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VIDEOGAME: UM BEM OU UM MAL?
Andre de Abreu

O fenômeno LAN e o jogo on-line

Cena de uma LAN House LAN Houses são casas que disponibilizam vários computadores ligados em rede, onde o usuário pode jogar contra a pessoa que está ao seu lado. O primeiro espanto do grau de aceitação desse tipo de estabelecimento no Brasil é o porquê disso. Afinal, as pessoas podem muito bem jogar a mesma coisa também contra rivais humanos no conforto de suas casas. Mas esta última frase já traz uma resposta implícita. As LAN House chegaram para instituir um pouco mais de humanidade aos jogos.

Antes delas, os jogadores ficavam horas sozinhos em casa, perante um monitor de raios catódicos jogando contra outros inimigos também controlados por outros solitários via internet. A LAN House é prova de que a necessidade de convivência entre os homens fala mais alto. Esses recintos se tornaram uma verdadeira acrópole contemporânea, onde o jogo é apenas um pretexto para a formação de grupos, relacionamentos, gangues, e os já citados clãs, tornando claro, ainda hoje, a importância do jogo como impulso social, efeito esse abordado na fala de Huizinga: “Não foi difícil mostrar a presença extremamente ativa de um certo fator lúdico em todos os processos culturais, como criador de muitas das formas fundamentais da vida social. O espírito de competição lúdica, enquanto impulso social, é mais antigo que a cultura, e a própria vida está toda penetrada por ele, como um verdadeiro fermento”.

Como um celeiro tão grande de profusão de cultura, as histórias são muitas. O menino Uri Leftel, de 16 anos, é um daqueles que procuram as LAN Houses não apenas pelo jogo, como ele mesmo diz: “O mais legal é a interação e a proximidade com a realidade. Poder matar um bonequinho controlado pela pessoa do lado é muito legal”. Daniel Elias, também de 16 anos, compartilha da fala de Leftel: "O que diverte é o jogo e o papo que rola depois". Apesar do clima de guerra habitando as telas dos jogadores, o clima amistoso no ambiente é grande. “(...) volta e meia alguém que está largadão na cadeira se esborracha no chão. Logo todos caem na gargalhada. ‘Sempre tem o que zoa todo mundo, mas não gosta de ser zoado’, diz Leonardo Teixeira, 15”.

Há também casos, onde o jogo em rede pode trazer prejuízos monetários, como é o caso do gerente financeiro Renato Alves, que “gasta cerca de R$ 250 mensais em uma LAN House próxima ao escritório onde trabalha, na região central de São Paulo. Pelo menos três vezes por semana, Alves dá ‘uma passadinha’ para jogar Counter-Strike com os amigos que fez na LAN house. Só que essa passadinha ‘dura mais ou menos umas três horinhas e consome boa parte do meu salário’”. Existem também situações extremas, como a do tailandês Lie Wen-cheng, que morreu após jogar durante 32 horas ininterruptamente. O laudo médico apontou como causa da morte, além do cansaço natural do corpo, o grau de estresse físico que o nível de envolvimento entre um ser humano e um jogo pode causar, levando até à morte.

Apesar de alguns casos negativos, o lado cultural e social dos jogos em rede com certeza são compensadores, fato esse respaldado por estudos médicos, como o realizado pela Universidade de Loyola, de Chicago. “Segundo os pesquisadores, as estratégias e táticas usadas pelos jogadores e times de Counter-Strike, reafirmariam a importância do lado social de confiança e cooperação entre os jogadores. (...) Um outro fator positivo apontado pela pesquisa, foi a possibilidade dos jogadores fazerem dentro do jogo o que teria conseqüências terríveis se fossem intenções extravasadas no cotidiano”.

Cenas do jogo Counter-Strike

Com todas as atenções voltadas para esse fenômeno, as LAN Houses estão predestinadas a sofrer do mesmo mal, segundo Huizinga, dos jogos de bola: se tornarem um esporte.

INFO
Andre de Abreu é jornalista, colunista do Jornal do Brasil e pós-graduando em Jornalismo Multimídia pela PUC-SP. Atualmente, trabalha no departamento de e-learning da Universidade Anhembi Morumbi. É também membro da Academia iBest de Imprensa e colaborador dos sites Magnet, Webinsider e Jornalistas da Web.

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